Um novo começo

 

amanhecer

Há alguns anos deixei de atualizar este blog.

Sem que eu percebesse claramente, meu coração começou a se movimentar em direção a outras paragens…

Um novo lugar.

Pouco a pouco meu interesse foi se deslocando da Psicologia em direção à Espiritualidade, e eu já não sabia mais o que poderia escrever aqui.

Minha alma já estava em outro lugar!

Este processo todo culminou com a decisão de me aposentar.

Em meados de 2015 fechei o consultório em São Paulo e me aposentei.

Tenho já 65 anos, mas a aposentadoria não se deveu à idade. Sinto-me cheia de vida e repleta de planos…

A decisão de me aposentar também não decorreu de um cansaço de atender e estar com as pessoas…

Atendi em consultório por quase 40 anos e sempre com muito prazer. Sempre encantada pelo mundo novo (cada pessoa é um mundo!)  que cada novo cliente trazia consigo para que eu o pudesse conhecer.

 

O labor no consultório, o exercício da psicoterapia, exige do profissional, um trabalho muito profundo consigo mesmo.

Uma constante lapidação.

Sempre estar atenta a si mesmo:

Consciente de seus pensamentos e intenções. Percebendo suas crenças mais enraizadas, raízes de preconceitos e distorções.

Exige a coragem de enfrentar os próprios sentimentos.

Todos!

Acolhe-los. Como se acolhe um irmão.

Para um terapeuta, o grande perigo reside nos seus próprios sentimentos não reconhecidos (em suas inconscientes emoções) que são empurrados para as sombras pela falta de aceitação.

São estes sentimentos e pensamentos residentes na sombra que verdadeiramente nos cegam: turvam a nossa compreensão e impedem que a gente possa ver os nossos clientes em sua inteireza essencial, que está muito além de qualquer tipo de compreensão racional.

 

Este labor constante, comigo mesma, esta constante lapidação (que é o dever deste ofício), me levou pela vida a fora, a buscar a minha mais profunda expressão.

Agora, naquilo que alguns chamam de “o outono da vida”, me permiti escolher: aquilo que sempre esteve reservado, íntimo, em mim, que venha à luz e possa florescer!

Esta intimidade profunda, que a poucos clientes dei a conhecer, é a minha vida espiritual, vibrante, fecunda.

 

Razão essencial do meu viver

 

Aposentei-me como Psicóloga.

Pedi a desfiliação ao CRP (Conselho Regional de Psicologia). Quis me liberar de suas regras e normas, que no exercício da profissão sempre respeitei.

Minha nova atuação, agora totalmente centrada na espiritualidade e no desenvolvimento espiritual não cabe nos limites definidos por este Conselho para a atuação de seus profissionais.

Continuo atendendo pessoas.

Agora, de uma maneira nova, centrada em sua busca espiritual.

Se você que me lê quiser conhecer este novo trabalho, expressão essencial de todo o meu viver, será um prazer receber sua visita em meu novo site:

Você pode acessá-lo aqui:

 

                                                                 Coroa do Resplendor

 

Tenho os braços e coração abertos.

Desejo te conhecer!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Relaxamento: uma pausa

O hábito do relaxamento é benéfico para todas as pessoas.

A vida cotidiana, para a maioria de nós, tem se tornado a cada dia mais estressante.
 Mais e mais tarefas, mais e mais demandas!
Com frequência ouço: “Não consigo dar conta de todas as minhas obrigações profissionais, sociais e familiares. Não consigo cumprir toda a minha agenda”.
E o resultado é que, ao stress físico da falta de sono e do excesso de trabalho, soma-se também o stress emocional da sensação interna de não dar conta, de estar em falta!
O mundo em que vivemos vai se tornando a cada dia mais complexo, e a nossa sociedade, mais exigente e competitiva.
Bem… Não podemos mudar o mundo em que vivemos (de forma suficientemente rápida, pelo menos), mas podemos mudar a nossa forma de viver neste mundo e de tocar a nossa vida nele.

Nós podemos criar o hábito de fazer pausas!

Uma sessão de relaxamento, em meio ao stress cotidiano, se constitui numa pausa realmente regeneradora.
É como “parar o mundo”:
Durante uma hora podemos parar o corre-corre, “puxar o freio de mão e reassumir o controle do veículo”.
Podemos dar a nós mesmos a oportunidade de sair do “modo urgente” e entrar no “modo importante”.
E o importante somos nós!
Num espaço protegido onde o telefone não toca, e “ninguém nos solicita”, podemos soltar o corpo, liberar tensões, demandas e exigências.
Apenas se soltar. Soltar-se e permitir que a descontração física promova a descontração emocional e mental.
Experimentar a sensação de bem-estar e paz!
Neste estado de paz olhar para a vida e para si mesmo de outra forma.
Uma forma mais amorosa, pacífica e inteira.
Ao final de uma sessão de relaxamento você se sentirá renovado:

Fìsicamente descansado
Emocionalmente pacificado
Com a mente mais clara e ágil.

E perceberá que o tempo que você usou para cuidar de você mesmo não foi um “tempo gasto”, foi um tempo muito bem investido naquilo que você tem de mais precioso: você mesmo!
Afinal, nós somos a nossa própria 

Galinha dos Ovos de Ouro

Porque é através da nossa lucidez, competência e eficiência, que todo o resto, todas as conquistas pessoais, todo o nosso sucesso profissional…
Acontece e vem!

Homenagem ao Professor Pethö Sandor

Sábado último, dia 28/04/12, prestou-se  uma singela e emocionante homenagem ao Prof. Pethö  Sandor, na PUCSP.
Foi uma grande alegria estar presente a este encontro. Ocasião de rever amigas e amigos, colegas de longa data, que tem em comum não apenas a formação profissional recebida deste grande mestre, mas também uma determinada postura diante da vida e no trato com a Psicologia e sua prática. Esta postura:

  •    considera o ser humano em sua inteireza
  •    tem uma visão integral da saúde que inclui corpo, alma (ou psique) e espírito
  •    tem uma visão holística do estar no mundo que inclui a consciência social e ambiental de forma universal.

O Prof. Sandor nos ensinou a tocar o outro e ser receptivo ao seu toque.
Ele nos ensinou a tocar e ser tocado, tanto no sentido literal da palavra -criador que foi de uma linha de trabalho em psicologia que integra as técnicas de Abordagem Corporal à Psicoterapia de base Junguiana  (C. G. Jung) –  como no sentido mais amplo do termo: viver com a alma, tocando profundamente a alma do outro, e ao mesmo tempo se deixando tocar, sem medo ou resistências indevidas, pelas outras pessoas e pelo mundo à nossa volta

Nesta homenagem, os  antigos alunos de Sandor foram convidados a apresentar em posters o fruto de seus estudos, trabalhos clínicos e intervenções.
Estive presente com 3 posters:
O 1º apresenta uma Monografia sobre o Método da Calatonia

O 2º pôster apresenta o trabalho no Espaço Animarte, trabalho que nos últimos anos, veio se somar à minha atuação como Psicoterapeuta em consultório.


O 3º pôster, trata de uma pesquisa acadêmica realizada pelo Grupo de Pesquisas Khalaó do qual fiz parte.


A apresentação destes posters, foi uma forma de expressar ao mestre a nossa gratidão, na forma de uma pequena retribuição.

 

Se algum visitante deste blog tiver dificuldade em ler os posters, deixe um comentário para que eu possa enviá-lo diretamente para seu email.

 

Orixá Ogum, arquétipo do guerreiro

23 de Abril, é o dia consagrado ao Orixá Ogum.
Ogum, na Mitologia Afro-brasileira é o arquétipo do guerreiro

Na cultura popular brasileira, esta mitologia está viva, e se faz presente no cotidiano das pessoas, no imaginário popular, das mais diversas formas. Muito mais presente que a mitologia greco-romana, de origem europeia, hoje domínio dos cultos.
Como sabemos, em nosso país, a mitologia dos orixás foi sincretizada com a mitologia do catolicismo popular através do seu panteão de santos. Isto aconteceu, em parte para evitar a perseguição do Estado (que aqui foi fortemente influenciado pelo poder da Igreja Católica ao longo da nossa história) e em parte porque  esta mesma fé cristã, tão disseminada em nosso país, penetrou profundamente na alma dos negros, brancos, pardos ou mulatos, herdeiros culturais desta mitologia africana.
Na cultura brasileira, Ogum é São Jorge. Santo guerreiro, vencedor do Mal.
É invocado e reverenciado como um grande protetor que impede que “facas e lanças” atinjam seus protegidos. Impede também que “cordas e correntes” possam prendê-lo!
Para este Brasil “branco, preto e mulato” (como dizia Vinícius de Morais), não importa o nome que o santo tenha: Ogum ou São Jorge.

Basta que nos proteja!

O povo, em sua sabedoria, busca algo que transcende os nomes, busca a essência. Busca o arquétipo do guerreiro: forte, incansável e destemido. Capaz de vencer todo o Mal! E pede a sua proteção.
Não à toa, São Jorge/Ogum é o padroeiro de um dos times de futebol mais populares do Brasil: o Corinthians. E a sua “Fiel” torcida, capaz de esperar 20 anos pela conquista de um campeonato, expressa fielmente mais uma qualidade deste santo guerreiro: a sua persistência e determinação.
Como herança psíquica da espécie humana, o arquétipo do guerreiro (assim como outros arquétipos) está presente na alma de todos nós.
Apenas precisamos nos relacionar com ele.
James Hillman, grande teórico da psicologia arquetípica disse: (no homem moderno) os deuses (desacreditados) se tornaram doença…
Melhor então, entrar em contato consciente com estes grandes poderes (deuses ou arquétipos) que atuam em nós.

Ogum em mim se expressa como um guerreiro espiritual: 

aquele que sabe que o inimigo mais poderoso está dentro e não fora de nós.

Sua espada é luz: consciência.
Por isso dispensa escudo.
Brande  sua espada com as duas mãos: a mão do Rigor e a mão da Graça. E dança! Dança porque a vida…  é fluxo contínuo.
Dançando me impregna de Força, Coragem e Determinação.

E você que me lê: conhece o seu Ogum? Conhece o arquétipo do guerreiro que se expressa em você?
Se não conhece, busque conhecer.
Acessar e ativar este poder dinâmico capaz de impulsioná-lo até a Vitória das vitórias: a plena realização do ser.

Saravá meu Pai Ogum!
Ogunhê meu pai!

Se você se interessa por Mitologia Afro-brasileira e Psicologia Junguiana, vai gostar do livro: Ori Axé, a dimensão arquetípica  dos Orixás. José Jorge de Morais Zacharias. Ed. Vetor

Reaprendendo a relaxar

Em minha prática profissional, quando propunha aos clientes sessões de relaxamento, muitas vezes ouvia:

“Comigo não adianta. Eu não consigo relaxar”

Justamente estas pessoas são as que mais se beneficiam deste tipo de atendimento porque, acredite…

Relaxar, a gente aprende!
Ou melhor…
Re-aprende!

A este processo de reaprender a relaxar, damos o nome técnico de Recondicionamento Psicofisiológico.
Há pelo menos 100 anos, médicos, psicólogos e outros profissionais que atuam na área da saúde, vêm criando e pesquisando, de forma sistemática, técnicas capazes de produzir o estado de relaxamento.
Nos últimos 30 anos foi notável o desenvolvimento nesta área: inúmeras técnicas foram criadas e muitas pesquisas têm sido realizadas.
Porque tanto interesse e tão grande esforço de pesquisa?
Nossa sociedade moderna complexa, exigente e “urgente” deu ao Stress um duplo status: “Epidemia Mundial” (classificação da OMS) e “Doença do século XX” (declaração da ONU).

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), o stress está associado a sete entre as dez principais causas de morte em países desenvolvidos.

  •    O stress (ou estresse) é extremamente danoso para a saúde física!

Mas não apenas para ela.

  •    O stress prejudica a memória, a rapidez e clareza mental.
  •   Compromete profundamente o de bem estar, realização e equilíbrio emocional dos indivíduos.
  •   Dificulta tremendamente a habilidade de manter vínculos afetivos duradouros e desenvolver relações saudáveis na vida pessoal ou profissional.

Dito de outra forma, o stress prejudica a nossa saúde de forma global: física, mental, afetiva/emocional e social.
Mas, como dissemos acima, nos últimos 30 anos, uma grande quantidade de técnicas de relaxamento foram criadas e testadas porque elas constituem a melhor e mais rápida resposta aos quadros de stress.
Numa série de sessões de relaxamento – Recondicionamento Psicofisiológico – várias destas técnicas podem ser utilizadas de forma a encontrar aquela mais adequada a cada cliente.

A pessoa reaprende a relaxar!

Na medida em que o cliente aprende e domina a técnica, através da prática, ele não mais necessita das sessões de relaxamento com a terapeuta.

Pode praticar o relaxamento em sua própria casa.

E, integrando este novo hábito à sua vida cotidiana, certamente terá uma melhor qualidade de vida e saúde integral.

Querido Mestre

Conheci o prof. Pethö Sandor em 1971 na PUCSP.
Ele era professor de uma disciplina de Psicologia Profunda no 2º ano do Curso de Graduação em Psicologia.
Eu, jovem de 18 anos, fui sua aplicada aluna.
Em suas aulas entrei em contato com a Psicologia Analítica de C. G. Jung – paixão à 1ª vista (ou, melhor dizendo, à 1ª leitura), que se consolidou como um amor de vida inteira!
Foi um grande privilégio conhecer o prof. Sandor tão cedo em minha vida. Permaneci ao seu lado pelos próximos 20 anos, bebendo desta fonte aparentemente inesgotável de conhecimentos teóricos e sabedoria de vida.
O que aprendi com Sandor nos inúmeros grupos de estudo, no curso de Cinesiologia Psicológica (o meu durou quase 4 anos!) e nos grupos de supervisão e meditação dos quais participei, constituiu-se na sólida base de conhecimentos relativos à Psicologia Profunda, Psicologia Analítica de Jung, Fisiologia e Anatomia Humana, Psicossomática, Técnicas de Abordagem Corporal e Relaxamento, Anatomia Sutil e Espiritualidade que formaram a estrutura e deram o enquadre à toda a minha atuação profissional como Psicóloga Clínica.

Isto já é muito! Mas, acreditem, houve mais…
Por tê-lo conhecido tão jovem, ele teve uma enorme influência na formação do meu caráter, da minha personalidade e da minha conduta na vida profissional e também pessoal.
Que influência melhor eu poderia desejar? Um homem maduro, culto e íntegro.  Com  grande profundidade e amplitude  intelectual e que expressava em todos os seus gestos e atitudes aquela simplicidade verdadeira que só nos grandes homens costumamos encontrar.
Por isto digo: mais do que um professor, Sandor para mim foi um Mestre.
Já no final dos anos 80 tive um sonho. Um daqueles “grandes”  sonhos, que reorientam a nossa vida, e dos quais vamos sempre nos lembrar:
“…uma criança sofria uma parada respiratória e era necessário proceder à algumas manobras corporais (ràpidamente, é claro!) para que ela pudesse voltar a respirar. Eu sabia como fazê-las – já havia feito isto em uma outra ocasião, em minha vida desperta -.Mas, em vez de procedê-las, saí em busca do Sandor para que ele pudesse realizá-las. Quando finalmente o encontrei e voltamos até a criança, ela não mais vivia!”
Acordei sentada na cama, gritando e chorando intensamente.
Imediatamente compreendi que o inconsciente dramàticamente me alertava: ou eu assumia a responsabilidade e os riscos de fazer aquilo que eu já era capaz de fazer, ou uma preciosa vida poderia para sempre se perder.

“Tempo de deixar a proteção e o aconchego da Casa Paterna”

Pedi uma entrevista ao Sandor, contei-lhe o sonho e a minha decisão de me afastar dos grupos de estudo e de seus ensinamentos.
Entreguei a ele um singelo poema onde expressava minha gratidão por tudo o que ele havia sido para mim e também, sinceramente, a minha insegurança diante de um caminho sem a sua proteção!
Sandor abençoou a minha partida: “Malu, quando quiser nos visitar, será sempre bem vinda!”
Já ouvi dizer que “é na separação que se conhecem as almas”. Também neste momento Sandor foi econômico de palavras e generoso na atitude.
Bem… 20 anos se passaram desde este momento em que finalmente ouvi e atendi o chamado da minha alma. O “chamado da aventura” como diria Joseph Campbell.
Pelas “terras” novas e desconhecidas por onde andei, “desertos” que atravessei, “praias”  onde cheguei, trazia sempre comigo um cantil de água pura: presente do Mestre.
Neste meu caminhar, pude  contar sempre com um esqueleto forte (a sólida formação que dele recebi), que recheei com novas e férteis carnes: conhecimentos, vivências e buscas que são o meu caminho pessoal e que são bastante diferentes das buscas e caminhos de meu Mestre.
Neste mês de abril de 2012, quando os alunos de Sandor, entre os quais me incluo,  preparam uma merecida homenagem a ele na PUCSP, quero prestar  também esta homenagem, pessoal e íntima, que mais uma vez expressa meu reconhecimento, admiração e gratidão ao Mestre do meu coração.

ORAÇÃO CELTA
Profunda paz da água para ti.
Profunda paz do ar fluido para ti.
Profunda paz da terra para ti.
Profunda paz das brilhantes estrelas para ti.
Profunda paz, oh Filho da Paz, para ti.

A alma das coisas

Dia destes postaram no face algo assim:

“As pessoas foram criadas para serem amadas
As coisas foram criadas para serem usadas
Atualmente as coisas estão sendo amadas
As pessoas estão sendo usadas”

Isto disparou em mim uma série de reflexões…
Sim. As pessoas foram criadas para serem amadas!
Acho mesmo que este é o desejo mais profundo de todos nós:
Ser amado
Amor de amante, amor de amigo. Amor de irmão, de filho, pai e mãe.
Mas, e as coisas? Qual é a nossa relação com elas?

Por coincidência… naqueles mesmos dias, lia  Joseph Campbell.

Numa nota de pé de página, ele falava sobre o Xinto (alguns conhecem como Xintoismo), religião tradicional do Japão, que já existia lá, antes da chegada dos ensinamentos Budistas aquele país.
Segundo Campbell, a forma principal de culto do Xinto, é a preservação e cultivo da pureza de coração. E Campbell completa, bem humorado: “como a Divindade é imanente a todas as coisas, estas, dos recipientes e caçarolas da cozinha à Mikado (manifestação mais alta da divindade), devem ser consideradas divinas: eis a essência do Xinto.”
Este respeito reverente pelos objetos e coisas do mundo, impregnou profundamente a cultura tradicional japonesa. Ainda hoje, no Japão moderno, podemos observar esta atitude reverente no comportamento, nas artes e nos costumes do povo japonês.


Lembro-me do bisavô japonês de meus filhos, que desentortava pregos para usá-los novamente… E bem sei que isto não refletia uma atitude sovina diante da vida.
Manifestava, de forma muito concreta este respeito e reverência aos objetos e às coisas.
Imagino que o bisavô Luiz, quando agia assim, não pensava conscientemente na imanência divina… Agia assim porque havia sido educado para respeitar todas as coisas do mundo, mesmo um simples prego.
Lembro-me também da avó japonesa (já nascida no Brasil, mas ainda impregnada pela cultura de seus pais) me explicando porque, para os japoneses, não se deve deixar nenhum grãozinho de arroz na tigelinha onde comemos: “este arroz para chegar à sua tigela, foi plantado e cultivado por alguém que para isto trabalhou de forma dedicada. Depois, este arroz foi cuidadosamente colhido por mãos habilidosas…”
Comer cuidadosamente todo o conteúdo da tigelinha torna-se então, uma forma concreta de manifestar o nosso reconhecimento e reverência pelas pessoas, pelo seu trabalho, pelo alimento e pela organização da vida.
Conheço muito pouco a respeito do Xinto, caminho de sabedoria e retidão.
Mas acho que ele tem algo a nos ensinar.
Somente através dos olhos delicados da nossa alma (a pureza de coração, à qual Campbell
se refere) podemos enxergar a alma das coisas, respeitá-la e reverenciá-la.
E, ao agir assim, nutrimos a nossa própria alma ( a nossa vida interior) com significado e beleza.

Experimente!

Desenvolver uma atitude atenta, respeitosa e reverente diante da vida, das pessoas e das coisas, produz em nós pouco a pouco, uma transformação: cria-se  um estado de espírito delicado, tranqüilo e pacífico! Capaz de enxergar no mundo a beleza e a harmonia.

Parece que ao reverenciarmos o mundo à nossa volta, reverenciamos a Vida e a nós mesmos.
E nos colocamos outra vez em contato com aquilo que de melhor que existe em nós.

Com reverência e gratidão ao bisa Luiz e à vovó Lucila.

Joseph Campbell ficou conhecido do grande público pelo seu livro: “O poder do mito” que foi apresentado também como uma série na televisão há muitos anos atrás.
O autor tem inúmeros outros livros maravilhosos. O trecho que citei encontra-se n”O herói de mil faces”.

Cadê a alma?

Conta-se que uma vez, alguns Bandeirantes, no seu afã de estender as fronteiras do nosso Brasil (ainda português), adentraram as matas, tendo índios “pacificados” como guias.

Como todo bom ocidental, já naquele tempo, os Bandeirantes agiam imbuídos pela máxima: “tempo é dinheiro”. Na sua ganância de conquista, marchavam muito ràpidamente, e exigiam dos indígenas, que conheciam os caminhos da mata, pressa, muita pressa.

De repente, para sua surpresa, os índios estancaram e se recusaram a continuar.

Sentaram-se no chão e se deixaram ficar.

“Porque pararam, se ainda é dia claro?”, perguntaram os Bandeirantes.

E os índios responderam: “Caminhamos tão rápido que as nossas almas

não conseguiram nos acompanhar. Agora precisamos sentar e esperar até que

elas cheguem. Só então, poderemos continuar”.

Esta estória (que é histórica de fato) dá o que pensar!

A primeira coisa que me chama a atenção nela,  é que os índios perceberam, muito ràpidamente, no espaço de dois, talvez três dias de uma caminhada, que haviam se afastado da sua alma.

A segunda informação importante: o Tempo!

A rapidez, como algo que afasta o ser da sua própria alma.

E por último, um ensinamento: sentar e esperar.

Nós, seres humanos do sec. XXI, com certeza levaríamos muito mais tempo para perceber o afastamento da alma. E quando digo alma, não me refiro ao sentido religioso do termo, uso esta palavra no seu sentido psicológico, como ânima, psiquê  –  aquilo que nos anima, nos dá vida de fato. Dá sentido ao nosso existir.

Os indígenas puderam perceber tão rapidamente que haviam se afastado das suas almas, porque estavam acostumados a viver com elas. Logo que se afastaram delas, sentiram falta, por que estavam habituados a tê-las consigo.

Assim como nós sentimos falta do nosso carro, quando ele vai para a oficina, ou de um colega do escritório (se gostamos dele!), quando ele muda de empresa.

Muitos de nós, seres contemporâneos, costumamos levar muito mais tempo para perceber que nos afastamos da nossa alma. Que a nossa vida, no fundo,  está vazia de sentido.

Que  estamos desanimados (literalmente: sem alma).

Ah! A pressa!

A rapidez! Tudo junto agora, pra ontem!

E nos acostumamos a viver assim: fazer o que precisa ser feito. E tudo precisa ser feito logo, de preferência, JÁ!

E quando já não há o que fazer (o que é raro), ou mais frequentemente, quando desabamos cansados. Estamos vazios, muitas vezes ficamos prostrados.

Porque a pressa e a rapidez tem este efeito em nós?

Porque a pressa nos impede de pensar, e mais ainda, não nos permite sentir.

Agimos como autômatos, sem pensar, sem sentir o momento. Sem vivê-lo!

Corremos atrás da vida em vez de vivê-la.

O momento passa por nós, passa pela nossa vida…sem que o tenhamos vivido de fato.

Não desfrutamos dele.  Não percebemos o seu perfume, seu sabor, sua cor. Sua textura, sua contextura. Sua alma.

Pois cada momento tem uma alma.

Que nutre e enriquece a nossa própria alma.

Momentos realmente vividos constituem o patrimônio da alma: imagens  vívidas, experiências profundas e significativas. Sabedoria e essência. Caminho de vida. Entendimento pessoal da  Vida e do seu próprio viver. Síntese pessoal.

Como recuperar isto? Como recuperar esta capacidade de ser inteiro?

Os índios já nos mostraram o caminho: sentar e esperar a alma chegar.

A sabedoria Zen se refere à prática da meditação como: sentar na calma.

Não conheço nome melhor!

Então, vamos sentar na calma e esperar a alma chegar.

E ela chega!

O poder do Coração Gentil

Relendo Joseph Campbell estes dias, me deparei com este interessante Conto de Fadas irlandês que narra a estória dos 5 filhos de um rei que, tendo saído para caçar, perderam-se e  viram -se longe de tudo e de todos.

Logo padeciam de sede.

Saíram para buscar água. O mais velho  encontrou um poço, mas este era guardado por uma horripilante mulher: tinha os cabelos desgrenhados, sua boca tinha poucos dentes, e os que lhe restavam, estavam tortos e enegrecidos. Nariz pontiagudo e pele bexigosa. Estava coberta por horríveis andrajos, sujos e malcheirosos.

Enfim, uma figura horrenda!

O príncipe então disse à mulher que tinha muita sede e pediu para se servir do poço.

A repugnante mulher lhe respondeu: “você pode se servir do poço se me der um beijo.”

O rapaz horrorizado respondeu: “prefiro morrer de sede antes de beijar você”.

E foi embora. Sem a água!

Quando encontrou seus irmãos, apenas disse que não havia encontrado água.

O mesmo sucedeu com os outros 3 irmãos que o sucediam, mas eles disseram, cada um por sua vez: “não encontrei nada”.

Então,  chegou a vez do mais jovem dos 5 príncipes.

Ao chegar ao poço e encontrar a feia anciã, o príncipe ouviu o mesmo pedido:

“Dê-me um beijo e você poderá se servir de toda a água que quiser”.

Ao que o príncipe Niall, era este o seu nome, respondeu: “Não só te darei um beijo, como dar-te-ei também um abraço.”

Ao receber beijo e abraço, a feia figura transmutou-se em encantadora donzela,  e o príncipe,  surpreso,  perguntou:  “galáxia de encantos, podes me dizer quem és?”

E a agora maravilhosa mulher respondeu: “Meu nome é Regra Geral”.

O príncipe Niall tinha aquilo que se convencionou chamar de Coração Gentil, que para Campbell é uma característica fundamental para o sucesso na Jornada do Herói.

Mas, e aí, você que me lê,  pode estar se perguntando, mas o que significa isto, este conto de fadas de criança, na minha vida de adulto com coisas muito mais sérias com que me preocupar??!!

Joseph Campbell , mitólogo e erudito,  é também um grande mestre na arte da vida e do viver, traduzindo em termos modernos, acessíveis ao homem moderno ou pós-moderno, a sabedoria perene da humanidade. Sabedoria que se expressa com magia e beleza nos contos e mitos.

Então, como aprendi com este grande mestre…

Todos nós vivemos momentos nos quais nos sentimos perdidos na vida, sem saber para onde ir. E nestes  momentos nos sentimos sedentos, necessitamos de apoio, luz, guia e direção. Precisamos disto, com a mesma urgência que uma pessoa sedenta necessita de água.

Nossa busca por resposta e solução muitas vezes nos leva a uma situação muito difícil de aceitar. Nela chegamos, e recuamos horrorizados, talvez uma, duas ou até 5 vezes.

O que diz a sabedoria perene?

“Abrace a dificuldade. Não fuja dela! Entre em relação com ela, amorosamente”

A aceitação amorosa da vida como ela se apresenta – sua face mais feia, pode ser medonha – aciona os “poderes mágicos” de transformação contidos no Coração Gentil.

Esta é uma “Regra Geral”.

Que deve ser testada nas mais diversas situações.

Em algumas situações, as condições mudam imediatamente, quase que por encanto.

Em outras ocasiões, o mundo externo e suas condições permanecem exatamente as mesmas, mas tudo mudou. Porque nós mudamos.

E,  onde víamos uma montanha intransponível vemos agora vemos apenas uma pedra.

Talvez até uma grande rocha,mas que nós podemos, com paciência e persistência, contornar…

Feliz 2012

A todos os amigos que visitam este blog

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