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Cadê a alma?

Conta-se que uma vez, alguns Bandeirantes, no seu afã de estender as fronteiras do nosso Brasil (ainda português), adentraram as matas, tendo índios “pacificados” como guias.

Como todo bom ocidental, já naquele tempo, os Bandeirantes agiam imbuídos pela máxima: “tempo é dinheiro”. Na sua ganância de conquista, marchavam muito ràpidamente, e exigiam dos indígenas, que conheciam os caminhos da mata, pressa, muita pressa.

De repente, para sua surpresa, os índios estancaram e se recusaram a continuar.

Sentaram-se no chão e se deixaram ficar.

“Porque pararam, se ainda é dia claro?”, perguntaram os Bandeirantes.

E os índios responderam: “Caminhamos tão rápido que as nossas almas

não conseguiram nos acompanhar. Agora precisamos sentar e esperar até que

elas cheguem. Só então, poderemos continuar”.

Esta estória (que é histórica de fato) dá o que pensar!

A primeira coisa que me chama a atenção nela,  é que os índios perceberam, muito ràpidamente, no espaço de dois, talvez três dias de uma caminhada, que haviam se afastado da sua alma.

A segunda informação importante: o Tempo!

A rapidez, como algo que afasta o ser da sua própria alma.

E por último, um ensinamento: sentar e esperar.

Nós, seres humanos do sec. XXI, com certeza levaríamos muito mais tempo para perceber o afastamento da alma. E quando digo alma, não me refiro ao sentido religioso do termo, uso esta palavra no seu sentido psicológico, como ânima, psiquê  –  aquilo que nos anima, nos dá vida de fato. Dá sentido ao nosso existir.

Os indígenas puderam perceber tão rapidamente que haviam se afastado das suas almas, porque estavam acostumados a viver com elas. Logo que se afastaram delas, sentiram falta, por que estavam habituados a tê-las consigo.

Assim como nós sentimos falta do nosso carro, quando ele vai para a oficina, ou de um colega do escritório (se gostamos dele!), quando ele muda de empresa.

Muitos de nós, seres contemporâneos, costumamos levar muito mais tempo para perceber que nos afastamos da nossa alma. Que a nossa vida, no fundo,  está vazia de sentido.

Que  estamos desanimados (literalmente: sem alma).

Ah! A pressa!

A rapidez! Tudo junto agora, pra ontem!

E nos acostumamos a viver assim: fazer o que precisa ser feito. E tudo precisa ser feito logo, de preferência, JÁ!

E quando já não há o que fazer (o que é raro), ou mais frequentemente, quando desabamos cansados. Estamos vazios, muitas vezes ficamos prostrados.

Porque a pressa e a rapidez tem este efeito em nós?

Porque a pressa nos impede de pensar, e mais ainda, não nos permite sentir.

Agimos como autômatos, sem pensar, sem sentir o momento. Sem vivê-lo!

Corremos atrás da vida em vez de vivê-la.

O momento passa por nós, passa pela nossa vida…sem que o tenhamos vivido de fato.

Não desfrutamos dele.  Não percebemos o seu perfume, seu sabor, sua cor. Sua textura, sua contextura. Sua alma.

Pois cada momento tem uma alma.

Que nutre e enriquece a nossa própria alma.

Momentos realmente vividos constituem o patrimônio da alma: imagens  vívidas, experiências profundas e significativas. Sabedoria e essência. Caminho de vida. Entendimento pessoal da  Vida e do seu próprio viver. Síntese pessoal.

Como recuperar isto? Como recuperar esta capacidade de ser inteiro?

Os índios já nos mostraram o caminho: sentar e esperar a alma chegar.

A sabedoria Zen se refere à prática da meditação como: sentar na calma.

Não conheço nome melhor!

Então, vamos sentar na calma e esperar a alma chegar.

E ela chega!