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A alma das coisas

Dia destes postaram no face algo assim:

“As pessoas foram criadas para serem amadas
As coisas foram criadas para serem usadas
Atualmente as coisas estão sendo amadas
As pessoas estão sendo usadas”

Isto disparou em mim uma série de reflexões…
Sim. As pessoas foram criadas para serem amadas!
Acho mesmo que este é o desejo mais profundo de todos nós:
Ser amado
Amor de amante, amor de amigo. Amor de irmão, de filho, pai e mãe.
Mas, e as coisas? Qual é a nossa relação com elas?

Por coincidência… naqueles mesmos dias, lia  Joseph Campbell.

Numa nota de pé de página, ele falava sobre o Xinto (alguns conhecem como Xintoismo), religião tradicional do Japão, que já existia lá, antes da chegada dos ensinamentos Budistas aquele país.
Segundo Campbell, a forma principal de culto do Xinto, é a preservação e cultivo da pureza de coração. E Campbell completa, bem humorado: “como a Divindade é imanente a todas as coisas, estas, dos recipientes e caçarolas da cozinha à Mikado (manifestação mais alta da divindade), devem ser consideradas divinas: eis a essência do Xinto.”
Este respeito reverente pelos objetos e coisas do mundo, impregnou profundamente a cultura tradicional japonesa. Ainda hoje, no Japão moderno, podemos observar esta atitude reverente no comportamento, nas artes e nos costumes do povo japonês.


Lembro-me do bisavô japonês de meus filhos, que desentortava pregos para usá-los novamente… E bem sei que isto não refletia uma atitude sovina diante da vida.
Manifestava, de forma muito concreta este respeito e reverência aos objetos e às coisas.
Imagino que o bisavô Luiz, quando agia assim, não pensava conscientemente na imanência divina… Agia assim porque havia sido educado para respeitar todas as coisas do mundo, mesmo um simples prego.
Lembro-me também da avó japonesa (já nascida no Brasil, mas ainda impregnada pela cultura de seus pais) me explicando porque, para os japoneses, não se deve deixar nenhum grãozinho de arroz na tigelinha onde comemos: “este arroz para chegar à sua tigela, foi plantado e cultivado por alguém que para isto trabalhou de forma dedicada. Depois, este arroz foi cuidadosamente colhido por mãos habilidosas…”
Comer cuidadosamente todo o conteúdo da tigelinha torna-se então, uma forma concreta de manifestar o nosso reconhecimento e reverência pelas pessoas, pelo seu trabalho, pelo alimento e pela organização da vida.
Conheço muito pouco a respeito do Xinto, caminho de sabedoria e retidão.
Mas acho que ele tem algo a nos ensinar.
Somente através dos olhos delicados da nossa alma (a pureza de coração, à qual Campbell
se refere) podemos enxergar a alma das coisas, respeitá-la e reverenciá-la.
E, ao agir assim, nutrimos a nossa própria alma ( a nossa vida interior) com significado e beleza.

Experimente!

Desenvolver uma atitude atenta, respeitosa e reverente diante da vida, das pessoas e das coisas, produz em nós pouco a pouco, uma transformação: cria-se  um estado de espírito delicado, tranqüilo e pacífico! Capaz de enxergar no mundo a beleza e a harmonia.

Parece que ao reverenciarmos o mundo à nossa volta, reverenciamos a Vida e a nós mesmos.
E nos colocamos outra vez em contato com aquilo que de melhor que existe em nós.

Com reverência e gratidão ao bisa Luiz e à vovó Lucila.

Joseph Campbell ficou conhecido do grande público pelo seu livro: “O poder do mito” que foi apresentado também como uma série na televisão há muitos anos atrás.
O autor tem inúmeros outros livros maravilhosos. O trecho que citei encontra-se n”O herói de mil faces”.

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O poder do Coração Gentil

Relendo Joseph Campbell estes dias, me deparei com este interessante Conto de Fadas irlandês que narra a estória dos 5 filhos de um rei que, tendo saído para caçar, perderam-se e  viram -se longe de tudo e de todos.

Logo padeciam de sede.

Saíram para buscar água. O mais velho  encontrou um poço, mas este era guardado por uma horripilante mulher: tinha os cabelos desgrenhados, sua boca tinha poucos dentes, e os que lhe restavam, estavam tortos e enegrecidos. Nariz pontiagudo e pele bexigosa. Estava coberta por horríveis andrajos, sujos e malcheirosos.

Enfim, uma figura horrenda!

O príncipe então disse à mulher que tinha muita sede e pediu para se servir do poço.

A repugnante mulher lhe respondeu: “você pode se servir do poço se me der um beijo.”

O rapaz horrorizado respondeu: “prefiro morrer de sede antes de beijar você”.

E foi embora. Sem a água!

Quando encontrou seus irmãos, apenas disse que não havia encontrado água.

O mesmo sucedeu com os outros 3 irmãos que o sucediam, mas eles disseram, cada um por sua vez: “não encontrei nada”.

Então,  chegou a vez do mais jovem dos 5 príncipes.

Ao chegar ao poço e encontrar a feia anciã, o príncipe ouviu o mesmo pedido:

“Dê-me um beijo e você poderá se servir de toda a água que quiser”.

Ao que o príncipe Niall, era este o seu nome, respondeu: “Não só te darei um beijo, como dar-te-ei também um abraço.”

Ao receber beijo e abraço, a feia figura transmutou-se em encantadora donzela,  e o príncipe,  surpreso,  perguntou:  “galáxia de encantos, podes me dizer quem és?”

E a agora maravilhosa mulher respondeu: “Meu nome é Regra Geral”.

O príncipe Niall tinha aquilo que se convencionou chamar de Coração Gentil, que para Campbell é uma característica fundamental para o sucesso na Jornada do Herói.

Mas, e aí, você que me lê,  pode estar se perguntando, mas o que significa isto, este conto de fadas de criança, na minha vida de adulto com coisas muito mais sérias com que me preocupar??!!

Joseph Campbell , mitólogo e erudito,  é também um grande mestre na arte da vida e do viver, traduzindo em termos modernos, acessíveis ao homem moderno ou pós-moderno, a sabedoria perene da humanidade. Sabedoria que se expressa com magia e beleza nos contos e mitos.

Então, como aprendi com este grande mestre…

Todos nós vivemos momentos nos quais nos sentimos perdidos na vida, sem saber para onde ir. E nestes  momentos nos sentimos sedentos, necessitamos de apoio, luz, guia e direção. Precisamos disto, com a mesma urgência que uma pessoa sedenta necessita de água.

Nossa busca por resposta e solução muitas vezes nos leva a uma situação muito difícil de aceitar. Nela chegamos, e recuamos horrorizados, talvez uma, duas ou até 5 vezes.

O que diz a sabedoria perene?

“Abrace a dificuldade. Não fuja dela! Entre em relação com ela, amorosamente”

A aceitação amorosa da vida como ela se apresenta – sua face mais feia, pode ser medonha – aciona os “poderes mágicos” de transformação contidos no Coração Gentil.

Esta é uma “Regra Geral”.

Que deve ser testada nas mais diversas situações.

Em algumas situações, as condições mudam imediatamente, quase que por encanto.

Em outras ocasiões, o mundo externo e suas condições permanecem exatamente as mesmas, mas tudo mudou. Porque nós mudamos.

E,  onde víamos uma montanha intransponível vemos agora vemos apenas uma pedra.

Talvez até uma grande rocha,mas que nós podemos, com paciência e persistência, contornar…